PONTO DE VISTA 501
AMIGOS
Tenho vários além do face, nem tantos quanto gostaria, mas
consideráveis diante de uma existência. Alguns já se foram. Por razões óbvias
vou concentrar nele, apesar da distância que nos afastou, pois já faz muitos
que nos deixou e permanece presente. Homem de hábitos simples. Numa das
encruzilhadas da vida, quando ainda estudante do colégio Gonzaga, em Pelotas,
nos encontramos e ficou a simpatia. O tempo nos reencontrou. Ele se instalou no
comércio nortense, trouxe a Léia do gás, procriou uma bela família. Quase na
mesma época eu cheguei e nos reencontramos, uma amizade profunda. Instalei o
meu consultório e até hoje continuo. No dia a dia comentávamos as dificuldades
da vida. Numa daquelas conversas com o Gaspar, entendeu que eu passava por uma
crise financeira, decorrente dos investimentos, ofereceu um empréstimo e eu
recusei dizendo não ser necessária, pois gozava de bom crédito e facilmente eu
resolveria com o Banco. Passou poucos dias e apareceu um dinheiro extra na
minha conta bancária, além das minhas necessidades. Surpreso, fui atrás das
origens e vi que foi depositado pelo meu amigo Gaspar Soares. Constrangido fui
conversar com ele e não houve jeito, tive que aceitar o vultuoso empréstimo.
Várias tentativas eu fiz para quitar e não houve jeito. Em seguida o amigo
faleceu e eu fui prestar contas com a viúva. Também encontrei dificuldades para
que aceitasse a quitação dívida e ela estabeleceu que eu pagaria parte da
formação universitária da filha, que se transformou numa advogada. São fatos
que a gente nunca esquece e nos torna mais humanos. Nem todas as pessoas são
generosas e percebem as dificuldades dos amigos, bem como nem todos ficam
eternamente agradecidos pelo que receberam. Ficou na lembrança e hoje recordo com
muita alegria, tenho eles como uma outra família....


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