terça-feira, 13 de junho de 2017


    A HISTÓRIA DO VELHO CHICO

Quem conta tem a sua versão. Quanto mais o tempo passa, fica mais difícil de ser entendido, vou dar a minha visão que se confunde com a minha vida.  Se alguém não gostar, paciência, não posso mudar. Como o assunto é extenso vou tentar fazer em quatro capítulos, no blog do neuton brum vocês podem acompanhar melhor. Eu já era daqui, vivi férias e várias temporadas pelo Norte. Por isso sempre me considerei Nortense. Em 1972, depois de dois anos de formação médica, por insistência do Dr. Vilmar Barbosa, aceitei o convite que vinha de encontro as minhas pretensões. Desta forma eu também estava resolvendo um problema dele que estava se deslocando para Rio Grande, onde exerceria a sua profissão e não queria deixar a cidade sem médico.  Eu, recém-chegado de Jacinto Machado, em Santa Catarina, estava exercendo as minhas atividades naquela cidade recebi o convite. Vim e venci, pois sempre me adaptei a esse povo que me recebeu muito bem e por isso aprendi a amar, daí toda minha dedicação. Quando cheguei, deparei com o prédio em fase final de construção e alguns equipamentos, como camas, aparelho de radiologia e alguns móveis, embalados e aguardando para serem utilizados, foram doados pela Alemanha, ainda na Gestão do Dr. Francisco Parobé e depois na de Dario Futuro. Entre outros, destaco membros da comunidade que se empenharam no erguimento do prédio, como Francisco Malta (Chiquinho Malta), Darci Xavier Pereira, Padre Onofre, Acacio Gibbon, Paulo Fernandes, Acacio Gonçalves, Dr. Jader Amaral, Dr. Vilmar Barbosa e tantos outros que viveram na época e não lembro agora, o fato pode e deve ser pesquisado para não se fazer injustiça.

Diante do quadro, fiz a primeira tentativa e cheguei ao então Prefeito, Mary Paladino. Com o devido respeito, fui enrolado pelo político amigo, fez uma proposta para ir fosse residir em Bojuru e quanto ao hospital ficou na conversa. Penso que a política foi o agente que obstruiu essa aproximação, pois o Parobé era seu adversário político e eu era o sobrinho do Parobé, com certeza o receio que que eu pudesse entrar para a política, fosse o causador da indecisão. Demorou um tempo e resolvi tomar uma iniciativa, aluguei uma casa na rua Marechal Floriano, fiz uma reforma e a transformei em uma casa de saúde. Contratei enfermeiras e possuía sete quartos, hospitalizando pacientes e fazendo inclusive partos e alguns procedimentos de pequenas cirurgias. O que eu queria mesmo era mostrar ao prefeito que se ele quisesse, poderíamos colocar o que me pertencia dentro do hospital, que praticamente estava com a área física construída e passaríamos a funcionar. Essa segunda tentativa também não deu certo. Enfim um novo prefeito, do mesmo partido, mas com uma mentalidade mais aberta, Elias Zogby. Foi me procurar e pediu que eu fizesse uma lista das necessidades, para que o hospital São Francisco pudesse dar início as suas atividades. Aceitei o desafio e fiz uma Lista, depois outra e finalmente uma quinta, aí ele disse que não tinha mais dinheiro. Fui obrigado a dizer que ficaria difícil abrir um hospital com maternidade se não existir um bloco cirúrgico.  Cedeu ao meu pedido e foi a última lista, naquela época ele me autorizou a gastar uma boa importância, em Porto Alegre, adquirindo material cirúrgico e outras ferramentas. Entramos então na fase de colocar em funcionamento. Aí notamos que faltou algo muito importante, os colchões. E agora? Pedimos ao Sr. Butros Nader, na época o comércio mais progressista da cidade, gentilmente ele fez a doação de cinquenta colchões de palha. No início achamos estranho, depois forramos com plásticos e serviu durante algum tempo.

O mês foi passando e não tínhamos dinheiro para pagar os primeiros funcionários. Para o azar do amigo Guaiba Gautério, proprietário da empresa ÁS DE ESPADAS (que está vivo ainda e pode confirmar essa história) um ônibus de sua propriedade se acidentou com mais de trinta pessoas feridas e para nossa sorte, que já não tínhamos mais sustentabilidade para manter as nossas contas e pagar os funcionários. Foi um saragaço, de um lado o Dr.Miranda, que eu tinha  convidado para trabalhar no hospital e do outro eu, a parteira Iolanda,  enfermeiros e outros ajudantes, repartíamos o atendimento, graças a Deus saiu tudo bem e depois que recebemos o faturamento do Guaiba, pudemos respirar com mais calma, Após chegou a primeira fatura do FUNRURAL, depois o ambiente começou a ficar mais tranquilo, aos poucos foi assinado o  convênio com INPS e outros, que deram forma ao HOSPITAL E MATERNIDADE SÃO FRANCISCO. Foi montado um laboratório de análises clínicas, sob a orientação do farmacêutico Dr. Oswaldo Nunes Barreto, que também, por longo período, com sua dedicação e presteza, prestou grandes serviços à comunidade.

Com o passar dos tempos, veio o Dr. Job Teixeira Gomes para integrar a nossa equipe, fazendo clínica e anestesia, junto com o Dr. Afonso Miranda e este, que escreve essa matéria, foram os três médicos que administravam e tocaram para frente o HOSPITAL, durante um longo período. Comecei como Diretor clínico e depois de um certo tempo ocupei a Presidência da Associação e Maternidade São Francisco.  Aos poucos e depois de sucessivos Prefeitos que passaram pela Prefeitura, cada qual querendo tirar vantagens políticas e colaborar com o mínimo, no atendimento da comunidade, foi tornando insustentável a sua manutenção. Essa fase foi muito triste e várias assembleias de sócios foram realizadas. Sendo que uma vez, cheguei ao ponto de entrar em briga corporal com o prefeito local que tentou me agredir pelas costas. Foi uma confusão, dentro do salão nobre da antiga Intendência, onde funcionava a Câmara de Vereadores. Só não vou descrever o episódio em detalhes para não transformar a matéria em página humorística. As assembleias do Hospital sempre foram tumultuadas. Sempre as mesmas brigas. De um lado os gestores que queriam fazer politicagem às custas do funcionamento do hospital, não queriam pagar a justa remuneração para manter o serviço que prestávamos à comunidade. Isso fazia atrasar os nossos compromissos com os funcionários e fornecedores.  Vários prefeitos passaram direta ou indiretamente pela direção do hospital e os problemas eram sempre os mesmos, usavam o hospital para fazer política e não cumpriam com as duas obrigações de colaborarem adequadamente na manutenção do serviço assumido;

E assim aos trancos e barranco fomos construindo o velho Hospital.  Sempre com o apoio da comunidade, dos políticos da época e dos Prefeitos do Municípios, que de uma forma ou outra colaboraram e fiscalizaram o bom atendimento. Milhares de partos, Cesarianas, atendimentos clínicos e de emergência, procedimentos cirúrgicos e tudo o que se faz em um hospital. Antes, como hoje, também encaminhávamos para centros de saúde com mais recursos, quando a situação permitia. A diferença é que hoje possuímos um serviço da Prefeitura que disponibiliza uma lancha ambulância em cinco minutos até Rio Grande. Naquela época fazíamos coisas inacreditáveis. Lembro que uma vez, na calada da noite surgiu um “bebum” que levou uma garrafada na cabeça, atingindo a região do olho. Com surpresa ele veio com o olho na mão e com toda a sua vascularização. Não peçam para repetir a técnica, por favor. Lembro que coloquei o olho no lugar, suturei adequadamente e ainda não sei como, mas o paciente por vários anos, cada vez que me enxergava na rua, vinha para me agradecer o ocorrido, mostrando o olho que tinha voltado a enxergar...também não sei explicar.... Outro fato, era que nós fazíamos as nossas cesarianas, quase sempre na ausência de anestesista, pediatra e muitas vezes com o auxílio apenas de uma enfermeira. Outro caso, lembro a gestante que chegou morta no hospital e o feto apresentava um fraco batimento cardio-fetal. Não esperei, pedi um bisturi e ali mesmo, no corredor de entrada, abri a parede abdominal e consegui salvar o recém-nascido. A necessidade nos obrigava a tanto, pois se não tomássemos uma atitude na emergência, quem faria? Muitas vezes ficávamos dependendo apenas de nossos conhecimentos, não existia o Google, ferramenta hoje disponível em cada computador, que poderia ser de grande valia no auxílio das emergências. Outro momento do hospital foi com a troca de um prefeito que resolveu trazer um interventor. Ele veio, não adiantou nada e serviu apenas para aumentar as nossas dívidas e criar mais confusão no ambiente.

Dando continuidade a história do nosso hospital, entramos na fase mais recente, que surgiu com a posse do Prefeito José Vicente Ferrari, que trouxe de Pelotas, para ser Secretário Municipal da Educação, o Agrônomo Francisco Xavier. A situação difícil continuou. O prefeito, mudou o nome para Hospital Municipal São Francisco e ficou como os demais, auxiliando pouco e exigindo muito pelos serviços que o Hospital prestava à população. Com a Gestão do Prefeito Zeny Oliveira, em que Xavier era o seu vice-prefeito, a situação tomou outro rumo. Conversamos muito com o Xavier que tinha vontade de fazer alguma coisa para melhorar a nossa casa de saúde. Fizemos uma comissão e fomos até a Capital para conversar com o Dep. Estadual e então Secretário da Saúde, Dr. Ciro Simoni, sobre a situação crítica que estávamos vivenciando. Esse por sua vez nos levou até o Governador Tarso Genro, que nos sugeriu a ideia da fundação para dirigir o Hospital. Sugeriu que entrássemos em contato com a Fundação Hospitalar Getúlio Vargas de Sapucaia do Sul. Assim fizemos. Conversamos com o Dr. Juarez Verba que levou o assunto a sua equipe. Vieram a São José do Norte, explanaram o projeto para a sociedade, os dois lados aprovaram e foi assinado um contrato de gestão. Os anos passaram e novos contratos foram assinados. Enfim um hospital dentro dos padrões, modernizado, dirigido por administradores competentes e muito bem supervisionado. De início algumas pessoas com interesses pessoais ou políticos, criticaram e depois ficaram calados. Hoje está visto, hospital recuperado e aquisição de vários instrumentos, pagamento dos funcionários em dia e o povo sem queixas, na verdade falta alguma coisa ainda, a dificuldade para erguer uma maternidade é um problemão e o povo clama por uma solução

Eu não queria me estender muito sobre o assunto. Como sempre disse, não quero ser a única verdade nesse conto. Qualquer história tem o seu lado. Pode até haver fantasias ou deixar alguém de lado, até mesmo de forma involuntária. A respeito dos fatos mais modernos, ou melhor depois que a Fundação se estabeleceu, pouco sei, uma vez que a minha contribuição foi até o início de suas atividades, depois sob o comando de Rodrigo Péres Vázquez, o rumo foi outro e praticamente não houve a minha participação na administração, uma vez que o hospital se encontra e está muito bem orientado, seguindo o seu caminho. Acabo de sair de uma reunião onde tomei conhecimento que o Rodrigo está saindo e deixando o seu lugar para Enf. Katia Paim, com certeza uma bela substituição, pois essa, pessoa por demais conhecida entre as enfermeiras da região, por ser professora e amiga, já mostrou o seu caráter e que já está pronta para exercer a função de chefia. Sem dúvida nenhuma, o hospital continuará a sua escalada de sucesso. Entre outros prefeitos que não foram citados, refiro ao Pref. José Luiz Saraiva, que cuidou muito bem dos jardins, quando contratou paisagista, para melhorar a nossa paisagem. Outro, foi o Pref. Jarbas Paixão Ilha Martins que reconheceu que não tinha habilidades para dirigir o hospital e me convidou para compor uma chapa que eu seria o Presidente e ele o Presidente de Honra. Colaborou bastante com o São Francisco. Fiquei nessa função até o momento de pedir a minha demissão, quando saí para disputar as eleições Municipais, como candidato à prefeito. Sobre a minha gestão, reservo-me ao direito de permanecer calado, eu não vou falar. Depois tivemos o Prefeito Pedro Zogby Filho, que teve como primeira iniciativa, um convite para que eu retornasse ao hospital, já que eu estava afastado. Retornei e dei novamente a minha colaboração. Houve também uma outra intervenção com a orientação do Sr. José Luiz Carneiro. Por sua vez, houve eleições e foi escolhido o  Roberto.... que ficou pouco  tempo e depois, a situação caótica do hospital, veio a ideia da fundação.  Para concluir, não posso deixar de citar o Prefeito Jorge Madruga, que contribuiu prestando auxilio à Fundação Getúlio Vargas, principalmente afastando forças ocultas em seu governo que queriam vingança, tirar a Fundação do Hospital, fazendo retornar ao passado de dificuldades. Madruga se impôs e não permitiu tal transformação. A história do velho chico não se encerra nessa sexta parte, vou esperar subsídios e depois prosseguir...




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